quarta-feira, 12 de julho de 2017

Maratona de inverno



O que fazer durante as férias de inverno? Ler, é claro. Eu faria isso de qualquer forma, mas como ainda não me cansei de maratonar, decidi participar da Maratona de Inverno proposta pelo canal Geeks Freaks (segue o vídeo do canal, no qual é descrita a maratona). Ela vai ocorrer do dia 16 ao dia 30 julho, então ficará bem dentro das férias escolares por aqui. 



Me cadastrei para o nível intermediário, pois achei o fácil simples demais, mas também não quis exagerar por ser a primeira vez que participo de uma maratona de leitura com mais pessoas ao mesmo tempo. Então, os desafios que tenho para cumprir na minha TBR (listinha de leitura) são:

1. Ler um livro com a capa azul
2. Ler um livro com menos de 200 páginas
3. Ler um livro que você comprou pela capa
4. Ler um livro escrito por uma mulher
5. Ler um livro sem saber a sinopse, ou do que se trata
6. Ler um livro nacional

Para cumprir os desafios, escolhi os seguintes livros:
Segunda pessoa - Henrique Schneider (cumpre os itens 1,2, 5 e 6)
Razão e sentimento - Jane Austen (cumpre os itens 1 e 4)
Guanabara real - Alcova da morte - Nikelen Witter; A.Z. Cordenonsi; Enéias Tavares  (cumpre os itens 3, 4 e 6)

Pretendo ler também: 
The beauty of the darkness - Mary E. Pearson
Batman - terra um (que é uma releitura, para ler o volume dois)
Batman - terra um - volume 2

E continuar as leituras de:
Os miseráveis - Victor Hugo (que estou lendo no aplicativo do Kindle)
Mausoléu - Duda Falcão (é um livro de contos que iniciei no começo do ano e do qual leio textos esporadicamente)
Mulherzinhas - Louisa May Alcott
Orgulho e preconceito - Jane Austen (estou relendo... )
O livro da literatura



Sim, amiguinhos, eu sei que isso é livro pra caramba, mas serão duas semanas de leitura e alguns dos livros são bem curtinhos, então tenho esperança de terminar algumas das leituras que eu começar, além de concluir algumas das que estão em andamento. O mais importante, no final das contas, é ler muito e avançar algumas páginas nesses livros todos!

Para acompanhar o andamento dos trabalhos, você pode me seguir pelo Instagram e pelo Twitter, pois postarei por lá atualizações do processo.

E vocês, o que vão ler neste inverno? Também farão maratonas ou pegarão mais leve?


quarta-feira, 5 de julho de 2017

A filha do escritor




Machado de Assis, um dos maiores autores da literatura brasileira, nunca teve filhos. Mas... E se tivesse tido uma filha? O livro A filha do escritor, de Gustavo Bernardo, publicado pela Agir, se baseia nessa hipótese.

A história inicia com a chegada de Lívia ao hospital em que trabalha o psiquiatra Joaquim. O médico logo se intriga com ela, pois a moça, muito bonita e tranquila, afirma ser filha do escritor Machado de Assis, mesmo que ele tenha morrido há mais de 100 anos. A paciente atrai todas as atenções do especialista, que passa a estudá-la quase obsessivamente, ao mesmo tempo em que mergulha nas obras de Machado de Assis, na tentativa de desvendar a doença de Lívia. 

A narrativa é feita pelo ponto de vista do psiquiatra, que parece "conversar" com alguém ao longo dos capítulos. Aliás, a forma como o autor fez essa construção se parece muito com uma característica da linguagem machadiana, que é dialogar com o leitor ao longo da escrita... 

Enquanto os encontros entre médico e paciente vão ocorrendo, o mistério ganha novos caminhos, pois cada pista descoberta por Joaquim leva o leitor a pensar em novas possibilidades para o rumo da história. O desfecho, infelizmente, não é tão surpreendente e confesso que, apesar de não ter "desgostado" dele, tive a impressão de que o autor poderia ter explorado de outra forma, talvez até mais fantástica, a trama inusitada que criou. 

O livro tem um bom ritmo, com capítulos rápidos de ler, numa linguagem bem atual e acessível ao leitor. Também é possível refletir sobre o papel da literatura na vida das pessoas e como o "excesso" de literatura poderia afetá-las (não que eu ache que possa existir excesso de literatura, mas enfim...).



Por fim, é bem interessante para quem gostaria de conhecer o trabalho de Machado, dados biográficos do autor e informações sobre sua obra. Pode ser uma excelente leitura para quem vai estudar o autor, ou está se preparando para ler suas obras. Da mesma forma, pode funcionar como uma revisão de informações para quem já leu a obra do autor.  No entanto, o melhor de tudo é que o livro não se prende a passar várias informações de forma enciclopédica para o leitor: os dados sobre Machado vão surgindo dentro da história, de forma bem costurada na trama de Joaquim e Lívia.

Então, se você é um leitor de Machado ou não, fica a indicação desse livro criativo e instigante. A filha do escritor não apenas é um bom livro de mistério, como também acrescenta várias curiosidades culturais ao seu repertório e deixará o leitor mais informado sobre o legado de um dos escritores mais importantes de nossa literatura.

quarta-feira, 24 de maio de 2017

Segundas intenções



Aquela era mais uma noite de trabalho. Carol colocou o avental branco sobre a calça jeans, ajeitou o cabelo num rabo de cavalo e seguiu para o balcão do restaurante, sem empolgação.

O Senhor Olavo, dono do estabelecimento, estava sentado atrás do caixa, contando diligentemente o dinheiro do caixa, como se da noite anterior até aquele momento alguma moedinha pudesse ter evaporado. Carol ignorou-o e organizou os cardápios.

Logo o primeiro cliente chegou para o jantar. A garçonete foi até a mesa e anotou o pedido: a especialidade da casa, lasanha. Enquanto escrevia, notou que o rapaz a observava, mas fingiu não perceber. Estava acostumada a lidar com esse tipo de coisa, de qualquer forma.

Depois de pedir ao cozinheiro que preparasse o prato do moço, voltou ao seu posto confortável atrás do balcão. Olavo foi até ela, lançando uma olhadela ao único cliente.

-Quem é? - Perguntou, como se fosse obrigação dela saber.

Carol deu de ombros.

-Descubra aquilo que for importante. - Olavo colocou as mãos em seus ombros e aproximou o rosto de seu pescoço para dizer isso num sussurro.

Com um calafrio, Carol respirou fundo e assentiu. Seria uma daquelas noites.

A campainha da cozinha avisou que o prato estava feito. Os braços da mulher tremiam enquanto depositava sobre a mesa a lasanha e os molhos.

-Está tudo bem…Carol? - O cliente leu seu crachá.

-Sim, senhor. Não se preocupe. - Declarou, colocando um sorriso amarelo no rosto.

Retirou-se, sentindo o sangue gelado. Não podia mais viver assim, não podia fazer aquilo de novo… Não valia se sujeitar àquele horror por tão pouco. Encolheu-se atrás do balcão, quase desaparecendo.
Um olhar pesado de Olavo caiu sobre ela. Sentiu a cor fugir de seus rosto diante dele. Não havia escolha. Pegou uma flanela e começou a limpar a mesa vizinha a do cliente.

-Você trabalha aqui há muito tempo? - Ele puxou assunto.

-Mais ou menos. - Retrucou e o olhar de Olavo sobre si fez com que encontrasse uma forma de 
emendar a conversa. - Nunca te vi por aqui.

-Não venho muito pra esse lado da cidade. Um amigo meu falou que aqui tinha uma lasanha deliciosa e decidi passar por aqui.

-Ah… Hum… E o senhor está gostando?

-Me chame de Davi, por favor. - Ele corrigiu. - Sim, está tudo uma delícia. Aliás, essa lasanha é de carne ou de porco? Não consegui identificar.

-Segredo do chefe. - Limitou-se a dizer. Não tinha certeza se conseguiria falar de amenidades por tanto tempo sem vomitar.

-Você tem certeza de que está bem? Está muito pálida…

-Estou bem sim. - Levantando o rosto, Carol encarou um impaciente Olavo. Estava com pressa. Queria saber. - Sabe… Depois do meu turno, você poderia me encontrar. Eu acho que isso me faria bem.

O rapaz pareceu um pouco constrangido, mas sorriu. Será que estava imaginando as segundas intenções daquele pedido? 

-Tudo bem.

-Meu turno termina à meia-noite. Você pode me esperar atrás do restaurante. 

-Combinado. - Ele ainda ostentava aquele sorriso. 

Assentindo com a cabeça, ela se afastou, com Olavo ainda vigiando. Não falou nada ao patrão, mas ele soube que conseguira. Ela tinha feito. Sempre acabava se rendendo, porque não havia muita escolha. 

Pouco depois, Davi se despediu. Precisava resolver alguma coisa antes de encontrá-la. Pagou a conta e foi embora. 

Quando ele saiu, a atendente se sentiu mais leve. Continuou cuidando das mesas, serviu mais alguns pratos e por algum tempo os afazeres afastaram seus pensamentos apreensivos do que aconteceria mais tarde. 

Às 23h55min, o restaurante já estava vazio. A mulher foi até o banheiro, retirou o avental, lavou o rosto, encarou-se no espelho. Estava ansiosa, e suas mãos não paravam. Escovou os cabelos, remexeu os brincos. Podia ser que ele nem viesse. Afinal, quem vinha se encontrar com uma pessoa que mal conhecia, no meio da noite? Era provável que Davi tivesse ido embora para nunca mais voltar, pensando que ela era alguma maluca.

No entanto, quando saiu para a rua, ele estava lá. Carol engoliu em seco. Ia acontecer. O rapaz se aproximou cumprimentando-a. 

-Ah… Você pode esperar um minuto? Esqueci uma coisa. - Estava tão nervosa que ele devia ter pensado ser algo muito importante. 

Não esperou resposta para voltar a passar pela porta. Ficou parada ali dentro, sentindo que o momento derradeiro daquela noite chegava junto com os passos de Olavo pela rua. Não queria ver, não podia. 

Deixou-se escorregar até o chão, onde se encolheu com as duas mãos sobre as pálpebras fechadas. Ainda podia ouvir e escutou a exclamação de surpresa e o baque de uma queda rápida, violenta. 
Depois, durante tortuosos instantes, houve o arrastar lento e cadenciado. A porta se abriu e o som continuou mais perto. Os passos, o arrastado. Os passos, o arrastar. Olavo, o morto. Até a cozinha. 

Perdeu-se no seu medo, escondida naquele cantinho escuro. Parecia não ter passado muito tempo quando ouviu a voz de Olavo. 

-Você está dispensada por hoje. - Encarou os olhos cheios de selvageria. - Vejo você amanhã. 

Com um aperto em seu braço, ele reforçava antigas ameaças que ela conhecia. Contar o que o sabia ou fugir eram impossibilidades. Ele a encontraria. 

Na noite seguinte, Carol colocou o avental, pensando que seria só mais uma noite comum. Os clientes esperavam e ela serviu uma fornada fresquinha de lasanhas vinda da cozinha. Não sorria, mas tentava esquecer o que acontecera. Era impossível. 

-Nossa, essa lasanha é mesmo deliciosa. E essa carne… 

***

Este conto foi o resultado de um pequeno desafio que surgiu numa aula de redação numa turma de primeiro ano do Ensino Médio. Eu propus aos meus alunos que criassem uma situação e alguns personagens sobre os quais deviam escrever em diferentes pontos de vista. Surgiu a situação do jantar com lasanha e os três personagens Carol, Olavo e Davi, cujas únicas características eram ser, respectivamente, a garçonete, o dono do restaurante e o cliente. 

Quando os alunos terminaram de escrever e compartilhar suas produções, fui desafiada a escrever minha versão, ou seja, escrever a minha história sobre essa situação e esses personagens. O resultado foi o o texto acima :) 

domingo, 14 de maio de 2017

Valter Hugo Mãe e a imprudência poética



Publicado no Brasil pela Biblioteca Azul, selo da CIA das Letras, Homens imprudentemente poéticos é um romance de Válter Hugo Mãe que data de 2016. Inspirado por um lugar que o autor conheceu em viagem ao Japão, o livro mergulha na cultura oriental para contar sua história.

Os personagens principais da narrativa são os vizinhos Itaro e Saburo. Itaro é um homem atormentado por premonições que lhe vêm da morte de outros seres. É um pintor de leques e vive na pobreza com sua irmã, Matsu, e a criada senhora Kame. Saburo é um oleiro, casado com a senhora Fuyu, por quem é muito apaixonado.

Uma tragédia provoca o início de uma inimizade entre os vizinhos, que permeia o livro, como um espécie de fio condutor. Essa história, porém, não se baseia apenas nessa trama, mas também na cega Matsu e sua bela percepção do mundo, do amor da Senhora Kame pelos que estão sob seus cuidados... 

Aos aldeões, o oleiro declarou: quero mostrar o amor, lamento que só vejam a morte. P. 86

Nas narrativas de seus personagens, o texto lança um olhar poético sobre a vida, permitindo diversas reflexões sobre os sentimentos e pensamentos que temos, sobre as diversas percepções da vida que existem, entre outros aspectos. Por isso, essa é uma leitura não apenas dos personagens e de sua história, mas de nós mesmos. 

A linguagem usada pelo autor não é rebuscada, mas é figurativa e poética, criando mais do que uma história de conteúdo, uma construção delicada de palavras, projetando belas imagens. As sentenças são curtas, tornando o texto ágil, e os diálogo não são apresentados com travessão, o que pode até gerar certo estranhamento no começo da leitura. 

Dizia rosto enclausurado para explicar que a cegueira era uma forma de prisão. Um modo de estar dentro. A menina Matsu estava dentro de si mesma. Nunca poderia ausentar-se da sua essencial clausura. P. 67

O estilo de escrita de Valter Hugo Mãe é muito semelhante ao do brasileiro Guimarães Rosa e do moçambicano Mia Couto, por brincar com os recursos da língua, criando poesia dentro da prosa. O conteúdo humano das obras dos três autores também fortalece essa "comparação". 

A edição brasileira foi feita com bastante capricho, com uma capa em rosa, azul e vermelho. A lateral das páginas é vermelha e o papel, ligeiramente amarelado. A fonte escolhida torna a leitura bastante confortável e há algumas ilustrações temáticas no começo do livro que são muito bonitas. O livro é, assim como o seu conteúdo, delicado e refinado em seu minimalismo. 

Homens imprudentemente poéticos é uma livro delicioso, cuja leitura flui rápida, mas que nem por isso é pobre de conteúdo (pelo contrário, é um livro carregado de reflexões e temas interessantes). O cuidado com a linguagem e a beleza criada nas histórias simples de seus personagens tornam esse livro inesquecível. 

segunda-feira, 1 de maio de 2017

[Mundo Morto] Capítulo 3 - Raízes


Mundo Morto é um romance. Leia os capítulos anteriores... 





Dois dias. Tinham se passado dois dias sem que Beatriz tivesse qualquer notícia ou contato humano. Os meios de comunicação não voltaram a funcionar e ela não vira qualquer sinal de resgate. Também não havia nenhum indício de que seus pais ou vizinhos estivessem por perto. 

A adolescente não tinha uma vasta experiência em catástrofes naturais, mas sabia que aquele silêncio não era normal. Àquela altura, alguma coisa já devia ter acontecido, alguém devia ter aparecido. 

Depois da visão do cadáver de dona Alma, não tivera coragem de sair de casa. Passou os dois dias tentando se ocupar e ter pensamentos positivos. A defesa civil, os bombeiros, alguém estava ajudando as pessoas que tinham sido prejudicadas e logo chegariam até ali para ajudá-la. Seus pais poderiam chegar a qualquer momento, aliviados por encontrarem-na sã e salva. 

Com essa visão otimista, Bea passou esse tempo recolhendo a bagunça causada pela tempestade, convencendo-se de que receberia um bom aumento de mesada por ser tão prestativa. Quando a noite chegava, porém, todos os seus pensamentos positivos eram contaminados pelas lembranças do que vivenciara nos últimos dias e pelo medo de que algo realmente muito ruim tivesse acontecido. Se conseguia dormir, exausta, tinha horríveis pesadelos com uma coruja monstruosa que não tinha olhos e que tinha fileiras de formigas saindo deles. 

Na manhã do terceiro dia após a tempestade, acordou dolorida e cansada depois de uma série desses pesadelos. Enquanto comia, decidiu que iria até o centro da cidade buscar informações. Não podia mais esperar parada que alguém aparecesse: tinha que entender a gravidade da situação. 

Assim que terminou de tomar o café da manhã, pegou a mochila e encheu-a com barrinhas de cereal e garrafas d'água para aguentar o dia. Também pegou uma lanterna e um canivete suíço que ficava na cozinha. Anos de filmes e seriados sobre o apocalipse haviam prevenido-a de que valia a pena estar preparada para tudo em catástrofes. 

Conferiu se Fuferson teria água e comida o suficiente e fez um carinho no gato adormecido antes de iniciar a jornada. Seria uma hora de caminhada até o centro da cidade e ela esperava encontrar alguém pelo caminho com quem pudesse conversar. 

Desviou os olhos do espaço na calçada onde devia estar dona Alma e encheu a rua com o som de seus tênis pelo calçamento de pedra. Havia pedaços de árvores e telhas espalhadas por tudo, então caminhou devagar, observando os obstáculos e vasculhando as casas na esperança de ver alguém. 

Havia cheiros estranhos no ar, como terra seca e infértil. Com a falta de movimentação na rua, esse pensamento fez com que tivesse um calafrio e ela começou a cantarolar para ignorar esses devaneios. 

Por fim, percebeu que se aproximava do seu destino, quando vislumbrou a torre da igreja. Não encontrara ninguém pelo caminho... Talvez um centro de refugiados tivesse sido organizado no ginásio da igreja ou houvesse um plantão na prefeitura, então teve certeza de que eram bons lugares para procurar ajuda. 

Conforme seguia até a rua principal, um cheiro de lodo e madeira apodrecida começou a invadir suas narinas, fazendo com que franzisse o nariz. Não tinha ideia de onde isso podia se originar, mas só podia ser do esgoto. 

Por fim, chegou ao cruzamento entre a avenida e a ruazinha que vinha seguindo e estacou diante da visão de um arranha-céu de raízes escuras que tinha surgido no meio da rua. A enorme massa de raízes retorcidas surgira de uma fenda no asfalto e se espalhara até a calçada, estendendo braços pelo asfalto e pelos prédios ao redor. 

Seus passos estavam incertos quando decidiu se aproximar, sem pensar demais nisso. A curiosidade que a movia também a alertava para parar, para sair correndo dali, mas Beatriz precisa ver o que era aquela coisa. 

A árvore bizarra era a fonte do cheiro desagradável que ela sentira e à medida que se aproximava, o aroma de putrefação de tornava mais forte, impregnando-a por completo. A coluna formada pelas raízes tinha o tamanho de um edifício grande e parecia uma coluna de trapo, enroscada em si mesma. 

Pensou na coruja que saíra da parece de sua casa e tremeu, pensando em como aquilo tudo parecia relacionado. O que estava acontecendo, afinal? Sua cabeça zumbia enquanto ela dava mais passos rumo ao desconhecido. 

Apenas ao chegar muito perto, percebeu que entre os ramos de madeira havia pontos coloridos, entranhados no interior do bolo que subia. Precisou focar muito bem um desses pontos para distinguir um formato e por fim descobrir o que eram aquelas coisas. Pedaços de roupas rasgadas, cabelos... Havia pessoas enleadas no meio das raízes. 

Os líquidos viscosos, entre um tom de negro e marrom avermelhado, não deixavam muito espaço para que ela pensasse positivamente. Os ângulos em que os ramos se torciam, prendendo braços, cabeças e pernas, eram impossíveis. 

Afastou-se alguns passos, presa no torpor daquela visão e sentindo um pânico maior do que quando avistara os olhos da coruja monstruosa. Sentiu-se cair para trás no asfalto. Não sentiu as mãos ralarem, ainda olhando para aquela aberração doentia e assustadora. 

Por fim, olhou para os lados, desesperada por encontrar qualquer sinal de que não estava sozinha. 

-Hey, tem alguém aí? - Gritou. - Alguém? 

Sem resposta, correu em direção à árvore. Alguma daquelas pessoas tinha que responder. Aquelas pessoas todas não podiam estar mortas. 

Pendurou-se entre algumas raízes e espiou por entre frestas. O miolo da estrutura não era compacto, mas construído de uma série de filamentos, como cipós. Entre eles, tripas, peles e órgãos estavam pendurados, junto com outras partes que ela não tentou identificar. Baratas, moscas e vermes dependuravam-se pelos ramos. 

Por um instante, não conseguiu desviar os olhos daquele retrato de horror. Era surreal demais para ser real. Tinha que ser outro pesadelo. Sentindo um pânico imenso invadi-la novamente, tentou descer, afobada, e enfiou as mãos e os pés às cegas pelas fendas. Esfolou-se no meio do processo e quando chegou ao cão estava coberta pelos fluídos escuros e fedorentos que corriam da árvore. 

Com os pés no chão, mal percebeu a imundice em que estava. Saiu correndo. Não importava mais se havia alguém por ali. Não podia mais ficar perto daquela coisa nem mais um instante. 

Disparou pelas ruazinhas, afastando-se em uma corrida desesperada, até tropeçar num galho e rolar duas vezes no chão. Sentiu as lágrimas rompendo a garganta e ganhando espaço enquanto se levantava, seu sangue misturado ao da árvore, enquanto voltava a sua corrida desesperada para lugar nenhum.